Como trabalho final, para entrega até dia 5 de dezembro, uma quarta-feira, peço:
A partir do tema "Jornalismo é...." desenvolvam um texto - em qualquer um dos gêneros estudados (artigo, ensaio, crítica, crônica, entrevista, reportagem....) colocando as idéias e visões pessoais de cada um.
Não se trata de trabalho acadêmico propriamente, tipo monografia. Trata-se de um texto jornalístico, em qualquer gênero, falando da visão de vocês sobre o que é (ou deveria ser) as práticas jornalísticas na atualidade. Simples assim.CJE/ECA/USP
Conceitos e Gêneros do Jornalismo
Profa. Nancy Nuyen Ali Ramadan
Thais Carrança
Gênero: Artigo
Escrever rockNão vou falar sobre o que é o jornalismo. Nem sobre o que ele deveria ser. Vou falar sobre o que é
um certo tipo de jornalismo e sobre como
uma parcela maior dele deveria ser.
Às vezes a gente tem momentos de extremo prazer com a arte. “Spanish Bombs” do Clash, o tecladinho inicial e a explosão de guitarras em “A.M. 180” do Grandaddy, o baixo na abertura de “Waiting Room” do Fugazi, aliás, “Waiting Room” inteira, aliás, o 13 Songs inteiro e o Repeater também. O personagem do editor gritando no escuro, prestes a ser morto, no fim da peça Getsêmani do Mário Bortolotto, “The End” dos Beatles no fim da peça “A Vida é Cheia de Som e Fúria”, da Sutil Cia. de Teatro.
Cortázar, Reinaldo Moraes, Daniel Galera. O baile dos meninos no hotel fechado para o inverno no Amarcord do Fellini. Os soldados andando contra a luz e cantando o tema do “Clube do Mickey” em “Nascido para Matar” do Kubrick. Monty Python. A fotografia “Falling Soldier” do Robert Capa. Posso continuar para sempre e isso vira um memorial indie. Vou poupá-los.
Enfim. Meu ponto é: não é sempre, mas com alguma freqüência a gente tem momentos de extremo prazer com a arte. Agora, com que freqüência o jornalismo nos brinda com um produto que nos dá prazer genuíno? Um texto, reportagem televisiva, radiofônica ou virtual que, para além de ter um assunto interessante, seja estimulante como criação estética. Aliás, o assunto pode até ser meio desinteressante, se o jornalista for bom mesmo, a criação supera o objeto referencial.
Uma coisa dessas é rara. É rara pacas. Não lembro da última vez que tive uma experiência dessas no jornalismo diário. Lembro de uma há alguns anos, na Folha de S. Paulo, texto traduzido de algum jornal estrangeiro, à época da tragédia do tsunami, sobre os homens e as mulheres de todo o mundo que se dirigiram aos países atingidos para ajudar na terrível, mas imprescindível, tarefa de recolher, classificar e dar destinação aos milhares de corpos de vítimas. Aquela matéria, que eu nunca reli, nem sei o autor, conseguiu tornar real pra mim o horror da tragédia e, ao mesmo tempo, o quão compassivo pode ser o ser humano em situações como essas.
O recurso utilizado: jornalismo literário de primeira. Jornalismo literário é uma delícia. Não dá pra ser todo o jornalismo, que ler um jornal inteiro assim todos os dias ia dar no saco. E não ia ter jornalista bom que desse conta. Mas de vez em quando é muito bem vindo. Agora, boa parte do jornalismo literário, quase todo ele, aliás, se recobre da pompa dessas duas categorias da escrita, o jornalismo e a literatura. A objetividade, o distanciamento, o palavrório requintado.
Precisaram uns vagabundos alucinados enfiar o pé no rabo do jornalismo pra mostrar que se podia fazer a coisa “como um dançarino rebola a bunda”, como um moleque punk toca guitarra sem camisa pulando e dançando. Jornalismo com culhões, sem pudores, sem objetividade, com
feeling pra caralho. Com o jornalista jogado dentro da realidade que está cobrindo. Repito: não é pra todos, nada me enche mais o saco do que um jornalista babaca ególatra falando de si mesmo quando o que você quer saber é do ASSUNTO. Mas quando o cara enfiado no assunto te faz saber mais do que você poderia conseguir de qualquer outro jeito, então esse é o jeito de se fazer as coisas.
Hunter Thompson, o pai do que estou falando: o jornalismo gonzo. Lester Bangs, o maior de todos os críticos de rock, que, como alguém descreveu perfeitamente,
escrevia rock, algo bem mais do caralho e difícil de fazer do que escrever
sobre rock. Louis Theroux, o gonzo nerd da BBC. Spider Jerusaelm, que ok, não é de verdade, é um jornalista gonzo personagem de quadrinhos (“Transmetropolitan”, de Warren Elis), mas é foda também.
Hunter Thompson: “So much for Objective Journalism. Don't bother to look for it here — not under any byline of mine; or anyone else I can think of. With the possible exception of things like box scores, race results, and stock market tabulations, there is no such thing as Objective Journalism. The phrase itself is a pompous contradiction in terms”. E “Objective journalism is one of the main reasons American politics has been allowed to be so corrupt for so long. You can't be objective about Nixon”. Hunter Thompson alucinado de todo tipo de droga conhecida pelo ocidente tentando cobrir uma corrida de motocicletas no deserto. Thompson tomando umas porradas dos Hell Angels após passar meses com os caras e escrever um grande livro sobre a gangue. Sobre certas coisas não se pode ser objetivo.
Lester Bangs me fez entender mais sobre mim mesma, sobre os caras que eu gosto como músicos e sobre o mundo em geral escrevendo críticas de rock. Foda-se descrever a sonoridade, os arranjos, os prescedentes históricos. Lester Bangs escreve como uma música de rock. Suas críticas a Iggy Pop e a Elvis estão entre as melhores coisas que já li. No texto sobre Elvis, Lester diz “O maior pecado de qualquer artista é o desprezo pelo público”. Os críticos deviam ler Lester e ler essa frase e tomar para si a crítica. E parar de se masturbar em público. E nos brindar com textos da mesma intensidade das obras que os originaram.
Aí é que está. O jornalismo tem o mau hábito de pegar o mundo – um mundo pulsante, que nos enche de ternura, paixão, ou do mais profundo ódio, ou desprezo, ou tédio, ou qualquer tipo de sentimento que se possa ter com relação ao mundo – e enquadrar sob sua técnica fria e bunda mole. Que faz de todos os fatos só isso, fatos. Coisas do mundo que fazem pessoas botar seus corpos contra tanques, destruir bairros comerciais a pedradas, viajar a outro país para cuidar de cadáveres anônimos, são reduzidas a textos que podem ser lidos durante o almoço. Ou vistos na tv durante o jantar.
A mim me interessa um jornalismo que traga em si, como criação estética, o sentimento daquilo do que trata. Que se aproxime da arte e da literatura não pela pompa e circunstância, mas pelo prazer estético. Não digo de todo o jornalismo, porque meu coração não agüentaria a sensação fodida dos gritos do editor prestes a morrer no fim de Getsêmani todos os dias. Ou um “Nascido para Matar” todo café da manhã. Mas assim, com alguma freqüência maior, descobrir mais sobre si mesmo e o mundo, por uma criação que te incite prazer semelhante à arte, nas páginas de um jornal, na tela de um telejornal ou reportagem virtual, ia ser um jeito massa de sair do marasmo jornalístico de sempre.