Crítica do filme Em Paris, na Folha de hoje:
Quase podemos ver fisicamente alguns cineastas tutelares por trás de "Em Paris": há Godard e Truffaut, Demy e Antonioni. Mas nada chama mais a atenção neste filme de cinéfilo do que o momento em que Jonathan (Louis Garrel) passa diante dos cartazes em que se anunciam "Elefante", de Gus Van Sant, e "Marcas da Violência", de David Cronenberg.
São dois filmes enigmáticos, sem dúvida, e neles é o destino dos personagens que comanda o enigma. Há um homem que se reconstrói totalmente diferente do que era, em "Marcas da Violência", como se fosse possível ser o mesmo e o outro num só corpo. E há o adolescente de rosto angelical de "Elefante", que entra numa escola e fuzila as pessoas sem que nunca se saiba o porquê.
(...)
À parte evoluírem em direção ao inexplicável, ao desconhecido -como "Em Paris", aliás- são filmes que tocam uma essência da sociedade americana, que é a violência.
"Em Paris" estamos em outra maneira de estar entre as coisas, um modo de ser europeu -que a nouvelle vague e o cinema italiano captaram em outros tempos melhor do que ninguém. Não é a violência a questão, mas um certo esgotamento do mundo, que se liga à tristeza essencial enunciada por Paul e com a qual convive um sentimento de vazio dos gestos e dos sentimentos.
O Inácio Araujo comeu bola pra caralho. Apesar de nada no filme ter chamado mais a atenção dele do que esse momento, aparentemente ele não prestou atenção suficiente. O cartaz de filme do Gus Van Sant que aparece no Em Paris é do Últimos Dias, sobre o fim da vida do Kurt Cobain (estrelado pelo Michael Pitt, que contracena com o Louis Garrel nOs Sonhadores, do Bertolucci).
O filme tem muito mais proximidade com esse sentimento de esgotamento do mundo e com uma tristeza essencial do que serve como contraponto simbólico da violência da sociedade americana com relação ao "modo de ser europeu". Comeu bola, Sr. Inácio Araujo.
E ótimo filme o Em Paris.
<< Página inicial