O amor é fodido. Hei-de acreditar sempre nisto. Onde quer que haja amor, ele acabará, mais tarde ou mais cedo, por ser fodido.
É melhor do que morrer. Há coisas, como o álcool e os livros, que continuam boas. A morte é mais aborrecida.
Por que é que fodemos o amor? Porque não resistimos. É do mal que nos faz. Parece estar mesmo a pedir. De resto, ninguém suporta viver um amor que não esteja pelo menos parcialmente fodido. Tem de haver escombros. Tem de haver esperança. Tem de haver progresso para pior e desejo de regresso a um tempo mais feliz. Um amor só um bocado fodido pode ser a coisa mais bonita deste mundo.
Só me lembro do sexo. É a única memória que pode ter utilidade póstuma. Durante todos os anos em que estivemos separados, devo ter batido uma média de cinco punhetas por cada foda que demos. As que me dão mais tesão são as que lhe deram mais tesão a ela. Ela diz o mesmo de mim. Deve ser a única coisa em que sou moderno. Não há nada mais desinteressante que o meu próprio tesão, sobre o qual não tenho mão, por assim dizer.
Pois não. A mulher que eu queria era alguém que quisesse ler os meus livros e tivesse livros que eu quisesse ler: alguém um bocadinho como eu, com livros que só tivessem sido lidos uma vez. O resto escapava-me e continua a escapar-me.
Lendo O Amor é Fodido, do Miguel Esteves Cardoso, escritor português contemporâneo. Que livro do caralho.
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