Não dá pra fazer merda nenhuma com 3 mil toques e na última hora. Meu textinho vagabundo pro Claro!, ainda sem título e sem alterações do editor e da professora. (versão 2 - após as sugestões do editor, mas ainda sem os cortes dele)
“Na América Latina a fronteira entre o futebol e a política é tão tênue que resulta quase imperceptível”, dizia Luis Suárez, jornalista espanhol, especialista na política da região.
Nós brasileiros bem o sabemos: vimos a vitória do escrete canarinho no Mundial de 1970 tornar-se instrumento de propaganda da ditadura militar, nas mãos do general Emílio Garrastazu Médici. Mãos que ergueram a taça Jules Rimet, durante a recepção da seleção tricampeã em Brasília, enquanto o país inteiro ouvia o “Todos juntos vamos, Pra frente Brasil, Salve a Seleção!”. Ninguém segurava este país.
A Guerra do Futebol
Outras duas ditaduras e a mesma Copa de 70 geraram um dos mais célebres episódios que demonstram a promiscuidade entre política e o nobre esporte bretão nos países latino-americanos.
Em junho de 1969, durante as eliminatórias para o Mundial no México, estavam marcadas três partidas entre El Salvador e Honduras. Na primeira, realizada na capital hondurenha de Tegucigalpa, Honduras ganhou por 1 a 0 sobre a exausta seleção salvadorenha, que passara a noite em claro devido à barulheira produzida pela torcida adversária em frente ao hotel em que a equipe estava hospedada.
No segundo jogo, em uma San Salvador ocupada pelo exército de metralhadoras em punho, El Salvador vingou-se com um 3 a 0. A torcida hondurenha foi escorraçada até a fronteira, que seria fechada horas depois. O embate final teve de realizar-se em território neutro. Na Cidade do México, a seleção de El Salvador ganhou por 3 a 2 na prorrogação, garantindo sua vaga na Copa do Mundo.
Em 14 de julho, El Salvador bombardeou Tegucigalpa e invadiu o país vizinho com suas tropas, dando início a uma guerra que duraria cem horas, deixando seis mil mortos. O que pareceu ter se originado nos estádios tinha, no entanto, raízes mais profundas.
El Salvador sofria com uma grande concentração de terras – dizia-se que o país era propriedade de 14 famílias. Além disso, o país, cujo território é menor que o de Sergipe, passara por uma explosão demográfica, que resultou em emigração em massa de camponeses para Honduras – país seis vezes maior, com população duas vezes menor.
Honduras, por sua vez, enfrentava uma onda de desemprego e forte crise econômica. Os governos ditatoriais e a imprensa de ambos os países alimentaram o ódio mútuo entre as populações, atribuindo ao vizinho a culpa por todos os males. O futebol, com seu poder de mover paixões, foi apenas a faísca no rastro de pólvora que demarcava a fronteira entre os dois países.
Zapatistas vs. Inter de Milão
Mas não é só a política institucional que se mistura com o futebol. Nem só de histórias tristes é feita a relação entre os dois.
Em 2004, a Inter de Milão apoiou a luta zapatista com uma doação de 2.500 euros. No ano seguinte, o Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN), grupo revolucionário mexicano que luta pelos direitos dos povos indígenas, respondeu ao ato de solidariedade com um desafio: uma partida de futebol entre a Inter e a seleção zapatista. Os rebeldes prometeram não golear a equipe italiana, em sinal de respeito.
Massimo Moratti, dirigente da Inter, respondeu à provocação com uma carta, em que dizia “Jogaremos!”. E afirmava: “O futebol pode ser um instrumento para alcançar objetivos importantes, mas também é algo que nos torna todos crianças e todos iguais. Todos sonhadores”.
O porta-voz zapatista Subcomandante Marcos respondeu com uma nova carta, em que propunha sete partidas, cada uma com uma causa política distinta. Sugeria os ex-jogadores Maradona e Sócrates como membros da equipe de árbitros, os escritores Eduardo Galeano e Mário Benedetti como narradores, além de travestis e transexuais como animadoras de torcidas (para combater a coisificação da mulher).
“Com tudo isso (e algumas outras surpresas)”, disse o Sub, “talvez o futebol deixasse de ser só um negócio e seria, outra vez, um jogo divertido. Um jogo feito de sentimentos verdadeiros”.
Um mês após esta carta, os zapatistas fechariam seus territórios, entrando num processo de consulta interna que levaria à “outra campanha”, processo de consulta popular com o objetivo de construir um movimento nacional para a mudança social. Os jogos nunca se realizaram.
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