Uma das coelhinhas perguntou o que eu queria ser ao sair da escola.
"Um poeta", eu disse.
Ela sorriu e começou a recitar Trees, de Joyce Kilmer. "Ela é minha poetisa favorita", disse.
Mesmo aos treze anos eu sabia que Joyce Kilmer era um homem e não muito bom poeta. Mas não disse nada. Quando ela recitou a palavra "bosom" (peito) no começo do poema, o peito dela estufou para me cumprimentar e de repente Trees de Joyce Kilmer se tornou o maior poema da língua inglesa, escrito por um homem com nome de mulher recitado por uma mulher vestida de coelha enquanto meu pai desenhava como Toulouse-Lautrec num guardanapo e o trânsito de final de semana rugia pela ponte.
(Sam Kashner - Trecho do livro "Quando eu era o tal")
Ontem, depois de ler isso aí no blog do Marião, pensei que talvez eu volte a escrever no ano que vem. "Voltar" provavelmente é um termo muito forte, já que eu nunca escrevi de verdade. Mas, em anos anteriores, volta e meia eu me dava ao trabalho de sentar no computador e dedicar duas horas a escrever alguma coisa já previamente lapidada mentalmente dias ou horas antes. Daí salvava e não mostrava pra ninguém. Ou mostrava pra poucas pessoas, sempre educadas o suficiente pra não fazerem eu me sentir mal por aquilo. Algum tempo depois, eu relia, achava uma merda, e apagava. Com o passar dos anos parei de escrever, pra não ter todo o trabalho de reler depois, achar uma merda e apagar. Passado mais um tempo, perdi o hábito de lapidar histórias mentalmente - quando o faço, é involuntário.
Mas o lance é o seguinte: eu sempre quis fazer algo. Algo artístico, digo. Queria ser apenas uma consumidora feliz com meu papel na cadeia produtiva das artes, e na maior parte do tempo eu sou mesmo, mas às vezes não. Daí, excluindo toda forma de criação coletiva (cinema, teatro, banda) - que eu não sei nem fazer trabalho de escola com outras pessoas -, sobram as artes plásticas e a literatura. Eu sou igualmente inepta pra ambos, mas acho que tentar escrever dá menos trabalho, quer dizer, o computador e os cadernos tão aí, eu domino razoavelmente a língua portuguesa, não tem, enfim, nenhum impedimento físico entre eu e a literatura.
Nunca me arrisquei a criar nada porque sempre me senti completamente incapaz de pensar em algo novo pra fazer. E, bem, se é pra fazer pior um troço que já foi feito antes, melhor deixar pra lá.
Daí, lendo o trecho do Quando eu era o tal, fiquei pensando como é do caralho o jeito com que alguns caras conseguem falar de suas mulheres ou de mulheres em geral. Esse jeito que o Marião tem, o Galera, o Reinaldo Moraes, e mais uma porrada de outros escritores. Um jeito não bunda mole ou sentimental, mas também não frio, machista ou escroto. Masculino pra caralho, ao mesmo tempo sacana e terno.
E fiquei pensando que nunca li nada que chegasse nem perto disso de autoras mulheres. Nunca li uma mulher falando de seu garoto com a despretensão e a ternura não sentimentalóide que esses caras conseguem. De um jeito feminino sem ser mulherzinha. Nunca vi mesmo. Pelo menos não do jeito que eu gostaria.
Daí resolvi que vou tentar. Vou começar escrevendo por aí, daí vemos no que dá. Quer dizer, vejo eu, que vou continuar não mostrando pra ninguém (e talvez continue relendo, achando uma merda e apagando depois, mas esperemos que não).
E por falar no blog do Marião Bortolotto, ele publicou lá hoje um texto bem desse tipo que eu falei. Em homenagem aos 25 anos da morte do Lennon. Parece que alguns escritores fizeram, pro Estadão, contos e textos sobre suas músicas preferidas do cara. O Marião escolheu "Jealous Guy".
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