26.8.05



Bem, já que perdi uma porrada de tempo dando um jeito no blog de clipping do MPL, acho que tudo bem enrolar um pouco mais e postar aqui também.


Tem essa música do Chico, que está num disco dele de 78, chamada Tanto Mar. Nunca tinha reparado nela direito. Ela está também num disco anterior, de 1975, gravado ao vivo em parceria com a Maria Bethânia, porém, nesse, aparece em versão instrumental. Bonita pra burro essa última versão, lembra um fado, tem umas palmas no meio, é uma farra.

A música foi escrita pelo Chico em louvor à Revolução dos Cravos (Portugal, 25 de Abril de 1974) e, em plena ditadura militar no Brasil, tratando-se de uma ode a um movimento que derrubara a ditadura do Estado Novo português, foi vetada pela censura.

Sobre isso, conta o site do Chico uma historinha pitoresca: o censor encarregado de encrencar com a música era Augusto da Costa - ninguém menos que o zagueiro Augusto da seleção de 1950, em cuja jurisdição, ou quase, o ataque uruguaio enfiou aquelas duas bolas no fatídico 16 de julho. "Porra, Augusto, você perde a copa e ainda vem me aporrinhar.." disse Chico. O zagueiro chutou a responsabilidade pra cima dos cartola. Tanto Mar passou, mas sem letra.

A versão original, com o Chico cantando, foi editada só em Portugal. Dizia:


Sei que estás em festa, pá
Fico contente
E enquanto estou ausente
Guarda um cravo para mim

Eu queria estar na festa, pá
Com a tua gente
E colher pessoalmente
Uma flor do teu jardim

Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei também quanto é preciso, pá
Navegar, navegar

Lá faz primavera, pá
Cá estou doente
Manda urgentemente
Algum cheirinho de alecrim



Anos depois, passado o conturbado período pós-revolucionário (2 anos da história de Portugal que ficaram conhecidos como PREC - Processo Revolucionário em Curso), o Chico fez uma outra versão pra letra da música. Bem mais triste, essa, que é a que está no disco de 78. Música de fim de festa. Não foi censurada.


Foi bonita a festa, pá
Fiquei contente
E inda guardo, renitente
Um velho cravo para mim

Já murcharam tua festa, pá
Mas certamente
Esqueceram uma semente
Nalgum canto do jardim

Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei também quanto é preciso, pá
Navegar, navegar

Canta a primavera, pá
Cá estou carente
Manda novamente
Algum cheirinho de alecrim