(sob o risco de soar fag)
Saindo do cursinho fora do horário usual (quase 5 horas, por causa da aula de Redação), reparar num movimento completamente diferente do das 6 e meia da manhã e do do meio-dia e pouco, horários em que eu ando pela rua normalmente, indo e voltando da aula. Passar na frente de um boteco sujo, abarrotado de homens, e sentir cheiro de cerveja choca e de gente, um cheiro forte o suficiente pra ser percebido da calçada. Um buzinaço na faixa da Vergueiro sentido bairro, por motivo nenhum aparente. Nada parecia impedir o trânsito, mas os carros buzinavam despudoradamente do mesmo jeito. No meio do barulho, uma roda de caras dividindo uma garrafa de Coca-Cola parados na esquina, alguns na calçada, outros já no meio da rua, impedindo o tráfego sem se importar muito com isso e conversando num tom que parecia de briga. Ter, meio triste, a sensação de que a cidade já não me pertence mais. Ou eu não pertenço mais a ela.
A cidade era minha da janela do Vila Gomes.
Cala a boca.
Em BUCK JACK BARRON, Norman Spinrad diz: "Cruzar a Rua Quatorze é como cruzar a divisão entre os quadrinhos de uma HQ", e eu adoro essa merda. E se todas as ruas fossem assim? E se você emergisse em oito, oitenta, oitocentas culturas diferentes, luzes diferentes, velocidades diferentes, tudo isso em apenas uma corrida de táxi?
BLADE RUNNER nos diz que a cidade está morta, então foda-se. Não abra seus olhos. Não interessa se você está apaixonado pelo mercado de Covent Garden, comprando esculturas quenianas e artefatos religiosos do Tibet, e ouvindo um show ao vivo de Beijing, ou se prova quinze cervejas diferentes em quinze quarteirões diferentes no Greenwich Village, sentindo o cheiro de curry tailandês e drogas preencher as ruas. Ela não está morta. Existe um enorme canteiro de flores em George Square, bem no meio de Glasgow.
Então caia fora da cidade se é o que você quer (e se faz você se sentir melhor, eu sempre gostei de Big Bill Broonzy cantando "I'm Moving to the Outskirts of Town"), mas eu não estou com você. Não é esse o som da minha cidade. E só pra deixar bem claro, a minha cidade não sofre com os Sons da Cidade, porque o soul é o som das pessoas mortas pela cidade. É música fraca. Na minha cidade, eu posso ouvir os tambores de Kodo ecoando com Ryogen-No-Hi, e as guitarras do My Bloody Valentine, grupos de cânticos budistas em um quarteirão, o esquisito hino da corte javanesa, a batida alienígena do Prodigy... Nick Cave e PJ Harvey dizendo coisas terríveis um para o outro, Lou Reed e Dick Dale, Portishead, e John Lee Hooker provavelmente ainda está vivo...
Eu adoro cidades. Sempre gostei. Eu nasci no campo, ao sul de Essex, onde uma infância preguiçosa se mistura ao cheiro de restos de colheita queimada e do esterco fresco que toma conta das ruas. Dias ensolarados tentando cortar a cauda de lagartos com facões, mijando em tocas de raposas, brincando com seus amigos em antigos abrigos anti-aéreos e batendo nos garotos que moravam no outro lado da cidade, com grandes galhos pesados. Existem maneiras piores de se crescer. Mas isso tudo se dissolveu em nada durante uma viagem à Londres. Assistindo os campos se infestarem lentamente de tijolos, as ruas ficando mais largas e escuras, a rodovia se tornando um canyon equanto paredes de vidro sujo e concreto começam a se erguer sobre nossas cabeças. Assistindo a cidade me alcançar, me cercar e tomar conta de mim...
É uma doença da qual não posso me livrar. Ter Manhattan sob meus pés às três da manhã, assistindo o amanhecer da parte mais escura de Londres. Em uma cidade menor, eu ainda procuro pelo concreto e pela eletricidade. Solte-me no interior e eu encontrarei uma estrada onde poderei cheirar fumaça.
As cidades de ficção científica passam por maus bocados. Hoje em dia, a própria expressão "cidades de ficção científica" remete ao inferno chuvoso que era a L.A. de Ridley Scott, e seus sete milhões de desabrigados. Ela imediatamente sugere uma distopia ficcional e um colapso urbano. Ninguém consegue enxergar além disso. E eu não entendo. Porque as cidades não desistem. Cidades estão vivas. E quanto maior a cidade, mais culturas ela abriga, mais viva ela se torna.
Warren Ellis. Publicado na Transmetropolitan #1 em setembro de 1997 (no Brasil, na Transmet #5).
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