11.5.05





EMBRIAGAI-VOS

      É necessário estar sempre bêbedo. Tudo se reduz a isto; eis o único problema. Para não sentirdes o fardo horrível do Tempo, que vos abate e vos faz pender para a terra, é preciso que vos embriagueis sem tréguas.
      Mas - de que? De vinho, de poesia ou de virtude, como achardes melhor. Contanto que vos embriagueis.
      E, se algumas vezes, sobre os degraus de um palácio, sobre a verde relva de um fosso, na desolada solidão do vosso quarto, despertardes, com a embriaguez já atenuada ou desaparecida, perguntai ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo o que foge, a tudo o que geme, a tudo o que rola, a tudo o que canta, a tudo o que fala, perguntai-lhes que horas são; e o vento, e a vaga, e a estrela, e o pássaro, e o relógio, hão de vos responder:
      - É a hora da embriaguez! Para não serdes os martirizados escravos do Tempo, embriagai-vos; embriagai-vos sem cessar! De vinho, de poesia ou de virtude, como achardes melhor.



(Baudelaire. Pequenos Poemas em Prosa)





VIII

        A minha embriaguez em 1848.
      De que natureza era essa embriaguez? Gosto da vingança. Prazer natural da demolição. Embriaguez literária; lembrança das leituras.
      O 15 de Maio. Sempre o gosto da destruição. Gosto legítimo, se é legítimo tudo quanto é natural.
      Os horrores de junho. Loucura do povo e loucura da burguesia. Amor natural do crime.
      Meu furor ante o golpe de Estado. Quantos tiros levei! Mais um Bonaparte! Que vergonha!
      E tudo, no entanto, se pacificou. Não tem o Presidente um direito a invocar?
      O que é o Imperador Napoleão III. O que ele vale. Achar a explicação da sua natureza, e da sua providencialidade.



IX

      (...)
      1848 só foi divertido porque cada um fazia utopias como castelos no ar.
      1848 só foi encantador pelo próprio excesso do ridículo.
      (...)



XCV

      
Higiene. Conduta. Método. - Juro a mim mesmo tomar, de hoje por diante, as seguintes regras como regras eternas da minha vida:
      Rezar todas as manhãs minha oração a Deus,
reservatório de toda a força e de toda a justiça, a meu pai, a Mariette e a Poe, como intercessores; rogar-lhes que me comuniquem a força necessária para cumprir todos os meus devers, e concedam à minha mãe uma vida bastante longa para gozar da minha transformação; trabalhar o dia inteiro, ou pelo menos tanto quanto mo permitirem as minhas forças; confiar em Deus, isto é, na Justiça mesma, para bom êxito dos meus projetos; rezar todas as noites uma nova reza, para pedir a Deus vida e força para minha mãe e para mim; dividir tudo quanto eu ganhar em quatro partes - uma para o dia-a-dia, uma para os meus credores, uma para os meus amigos, e uma para minha mãe; obedecer às normas da mais estrita sobriedade, a primeira das quais é a supressão de todos os excitantes, sejam quais forem.


(Baudelaire. Meu coração desnudado)





a morte da utopia.