9.4.05



Às vezes eu digo pras pessoas que quero ser intelectual quando crescer e elas não entendem direito.




A palavra intelligentsia, de origem russa, designava originalmente um grupo de pessoas de cultura unidas por idéias críticas ao sistema, opostas à especialização acadêmica e marcadas por uma forte conotação ética. Quando o intelectual norte-americano Russel Jacoby chama de os "últimos intelectuais"[1] à geração nascida nos EUA nas primeiras décadas do século, ele se refere ao desaparecimento do intelectual ligado à cultura pública, ou da intelligentsia no seu sentido original, e aborda um tema pertinente ao Brasil.

Jacoby submeteu jornalistas, acadêmicos e escritores, informalmente, à seguinte pergunta: quais os novos - os com menos de 45 anos - intelectuais não acadêmicos norte-americanos de amplo significado? Respostas que incluíam Foucault, Derrida, Habermas evidentemente foram invalidadas, já que nenhum deles é norte-americano. Norman Mailer, Noam Chomsky, John Kenneth Galbraith, Mary McCarthy - todos já tinham mais do que aquela idade no momento da primeira consulta. Em 1979, uma lista dos dez principais intelectuais dos EUA incluía, além deles, Lionel Trilling, Edmund Wilson, Irwing Howe, Dwight MacDonald, Daniel Bell, Robert Silvers e apenas Susan Sontag com menos de 45 anos (naquele momento com 37).

Não se trata, para Jacoby, do desaparecimento de uma geração intelectual que, na verdade, nunca apareceu. A geração nascida para a vida pública nos anos 60, uma década particularmente radicalizada e politizada, poderia ter dado origem a uma
intelligentsia muito vigorosa. Mas três fatores explicariam o desaparecimento do intelectual ligado à esfera pública - a restruturação das cidades, o desaparecimento da boêmia e a expansão da universidade.

Para Jacoby, os intelectuais nascidos na virada do século representam os intelectuais norte-americanos clássicos, que se mantinham por meio de livros, de críticas e do jornalismo, raramente sendo professores universitários. "Eram ensaístas soberbos e escritores elegantes: iconoclastas, críticos e polemistas que não se submetiam a ninguém."

Por volta de 1920 nasceu uma geração considerada por ele como de transição. Seguia escrevendo ensaios elegantes para pequenas revistas, em linguagem acessível à ampla comunidade intelectual. O peso do academicismo só se fez notar fortemente na geração nascida depois de 1940. "Se os salários e a segurança da vida acadêmica eram o prêmio vislumbrado, o declínio da vida intelectual tradicional representava o castigo imediato."

Tornou-se impossível sobreviver com críticas de livros, o telefone suplantou as cartas, os cafés foram substituídos pelas conferências, declinou a vida boêmia sob a pressão das universidades. "A sociedade dos cafés propiciou o aforismo e o ensaio; o campus da escola superior produziu a monografia e a conferência - e a aplicação da subvenção."

Se os anos 90 do século passado determinaram o fechamento da fronteira oeste nos EUA, a fronteira cultural se fechou na década de 50 com o desaparecimento da boemia e a ascensão dos subúrbios das grandes cidades, determinando uma mudança não apenas geográfica, mas também cultural. Com isso foram se modificando o
habitat, as maneiras e o idioma dos intelectuais. "Os intelectuais mais jovens não mais necessitam ou desejam um público amplo; eles são exclusivamente professores: os campi são seus lares, os colegas, sua audiência; as monografias e os jornais especializados, seu melo de comunicação."

A predominância da vida acadêmica significa não apenas a profissionalização, mas também a privatização de um universo público mais amplo. Na invasão da universidade pelos intelectuais originários dos anos 60, foram eles, em última análise, os invadidos. Jacoby usa Rousseau para descrever o novo espírito do que ele chama de "capitalismo acadêmico" e de "burguesia acadêmica": "O primeiro homem que, tendo cercado uma parte da universidade, resolveu dizer: 'Este é o meu instituto', e encontrou membros do corpo docente humildes o suficiente para acreditar nele, foi o verdadeiro fundador do mais extremado capitalismo acadêmico''.

O espaço jornalístico se restringiu constantemente, em contraste com a expansão das universidades. E, além disso, predominou na imprensa o esforço intenso de atrair leitores através de uma cobertura "leve" e "quotidiana".

A ciência política se constitui num dos exemplos mais significativos da crise do intelectual ligado à esfera pública, mais particularmente porque deveria dar conta de uma questão tão essencial quanto o poder. E, no entanto, significativamente, ela foi vítima da hiperespecialização, negligenciando os problemas centrais das relações políticas. Ela "se restringiu a um entediante e limitado passatempo profissional". A "obra desses especialistas reflete suas próprias situações na universidade, não as necessidades do público", um saber que se subordina à instituição acadêmica. Fruto desta é a hiperespecialização, que negligencia os problemas políticos essenciais.

À medida que a reflexão sobre o poder, a dominação e as classes é substituída por um vocabulário que "reduz o conflito humano a diagramas e registros de computador, essas disciplinas passam a encarar a sociedade como um problema de engenharia". Palavras como ''absolutismo'', "justiça", "nação", "direitos", "sociedade" e "tirania" são substituídas por outras como "atitude", "conflito", "jogo", "avaliação". A área intelectual se subdivide - em seis anos, nos EUA, ela incluiu oficialmente trinta e três novas especialidades; o número de competidores diminui conforme surgem reinos cada vez menores de especialidades, e os problemas de maior abrangência passam a estar cada vez mais ausentes.

Jacoby constatou, por exemplo, que nos dez anos situados entre 1959 e 1969, as três principais publicações de ciência política editaram apenas um artigo sobre o Vietnã, de um total de 924 trabalhos. Nesse mesmo período o principal órgão acadêmico publicou um único estudo sobre a pobreza e três sobre crises urbanas.

De bom grado essa geração aceitou, às vezes com um lamento pessoal, seu lugar na burocracia oficial ou na mídia. Perderam-se a transcendência, a independência e a carga ética que possuía a
intelligentsia. A derrota política dos anos 60 só foi completa quando se consolidou no campo das idéias e da teoria. "A humanidade não faz a história como lhe agrada, mas ela faz a história", conclui Jacoby. "A escolha entra no edifício da história pela porta dos fundos", acrescenta.

Mesmo sem uma análise mais acurada, é possível constatar a pertinência dos enfoques de Jacoby na passagem da geração intelectual de Caio Prado, Sérgio Buarque de Holanda, Paulo Emilio Salles Gomes, Antonio Candido, para a que a sucedeu. A profissionalização e a extensão da vida acadêmica coincidiram com a especialização, a construção dos
campi - aí a mudança da Faculdade de Filosofia da rua Maria Antonia para a Cidade Universitária, em São Paulo, não poderia ser mais representativa -, a deterioração dos centros das grandes cidades e, no final da ditadura, o processo de cooptação pelo Estado de intelectuais - que Chico de Oliveira chamou apropriadamente de "aves de arribação" - dão bem a dimensão do fenômeno entre nós. Se as opções políticas radicais continuam a ser majoritárias entre a intelectualidade acadêmica, sua produção não necessariamente reflete isso, sua linguagem se tornou em grande parte inacessível ao grande público e até mesmo seus objetos de estudo se distanciaram dos temas da esfera pública.


1-
Os Últimos Intelectuais: A Cultura Americana na Era da Academia. São Paulo: Trajetória Cultural, 1987.



[O texto acima é o segundo tópico do ensaio Nós que amávamos tanto O Capital de Emir Sader, publicado na edição n° 1 da revista Praga, em 1996.]