Desculpa, mas a gente morre.
Frase na cabeça. Essa aí em cima. Associada a uma cena: sem qualquer introdução, a câmera foca, em close, um parto. Há algum filtro de cor, mas não tenho certeza se são cores frias ou quentes. Verde e azul, amarelo e laranja? Não sei. Não lembro se trata-se de uma cesariana, mas acho que sim. Não lembro se há trilha sonora ou se é silenciosa a cena ou ainda se são ouvidos gritos. Corta. Uma mulher acorda numa cama de armação de metal, mas não do tipo de metal do qual são feitas as camas baratas vendidas nas propagandas das lojas que vendem à prestação, aparentemente, é construída de algum metal maciço e deve ser pesada de arrastar. O móvel não encosta em nenhuma parede, em nenhum lado. O despertar da mulher e filmado de cima. Ela veste camisola branca leve, acorda com uma cara bem feita de gente que tava dormindo. Descabelada, mas sem o costumeiro exagero que busca demonstrar que alguém acaba de acordar. Com o rosto gorduroso. O quarto é bastante grande e claro. Há poucos móveis para tamanho espaço e o pé direito do cômodo é bem alto. Sobre uma mesinha, uma bacia branca de ágata e uma jarra com água. Não lembro se a mulher faz algo com esses objetos. Sei que em dado momento ela sai do quarto, e entra em algo que parece ser uma cozinha. Não sei se passa por um corredor pra isso ou se há um corte. Na cozinha há uma velha. Que diz Desculpa, mas a gente morre. E essa é a primeira fala do filme.
Daí acontece o seguinte: eu não sei se é mesmo um filme. Tenho a vaga impressão de ser um curta nacional visto em alguma mostra. No entanto, lembro das cenas de um jeito quase onírico, o que me faz pensar que talvez eu tenha inventado isso, ou lido e imaginado, ou sonhado mesmo. E tem essa frase. E ela insiste em martelar na minha cabeça. Desculpa, mas a gente morre.
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