all my favorite people live in this box I look at every day

eu não gosto de fotos. eu não tiro fotos, eu não gosto que tirem fotos de mim e tão pouco vejo fotos dos outros. minto, eu gosto de fotos. meu problema todo é especificamente com fotos de pessoas conhecidas. odeio as pessoas posando sorridentes. odeio o fato de serem sempre os mesmos malditos anglos e as mesmas posições estúpidas, num desfile homogêneo e infinito. mesmo com o advento da câmera digital, que, por tornar a fotografia muito mais barata (tirados os custos da máquina, logicamente), permitiria um grau de experimentação muito maior, nada muda. ao invés de se deleitarem com iluminações inusitadas, ângulos originais ou algo que o valha, não!, as meninas que menstruaram ontem fazem questão de seguir tirando fotos da porra de seus pés e de seus rostos colados no de alguma amiga, ambas escancarando um sorriso.
toda essa rabugice cai por terra quando se encontra uma foto como essa aí em cima. ainda era o Real. deve ser primeiro ano, 2002, da esquerda pra direita, Jordani de perfil, braço e cabelo da Mariana, Fernando, Salem, Mateus e eu. Fernando (com um monte de cabelo!) devia estar na mesa porque era amigo do Mateus. Mariana, porque era namorada do Fernando. o Jordani e a Moara andavam indo pro bar direto comigo e o Salem. o Salem também tinha muito mais cabelo. no caderno, o Mateus deve estar anotando uma das listas infinitas de nomes pra alguma das bandas conceituais dele, do Salem, e do Caio, uma dessas bandas que nunca chegaram a existir ou que, depois de semanas atrás de um nome perfeito, acabaram com nomes terríveis como Shoot the Poodle. eu ainda uso essa mesma camiseta e a saia e a meia e o óculos e fumo a mesma marca e bebo cerveja, mas agora é o Toldo. e o Fernando não é mais só o amigo do Mateus, muito menos a Mariana é só a namorada do Fernando, amigo do Mateus, o Jordani quase não aparece mais, o Salem está em exílio voluntário em frente a sua tevê, o Mateus está aparentemente casado e desaparecido.
um dos últimos trabalhos que fiz pro Equipe foi sobre o Murilo Mendes, pra Literatura. era sobre o Idade do Serrote, livro de memórias da infância do cara. o trabalho começava citando um texto do Guilherme Weber sobre uma peça em que ele atuou, chamada Nostalgia. ele dizia que Jung ilustrou o mergulho na memória com a imagem de um homem em um quarto escuro, com paredes forradas de fotografias, munido apenas de uma pequena lanterna. se, em um quarto escuro, munida apenas de uma lanterna, o feixe de luz batesse nessa foto, eu sem dúvida alguma abriria um sorriso e desperdiçaria alguns minutos tentando ternamente lembrar do momento em que a foto foi batida. acho que esse post é meio que isso, de um jeito meio pretensioso.
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