24.4.03

PRIMEIRA SONATA ELÉTRICA
Mário Bortolotto


O que há com ela? Porque esse ar febril? As pernas dentro da bacia. Ardis de mulher que ainda não decidiu se quer. Ela espera que eu me renda. Que morra de vontade de morder suas coxas. Esse inverno não vai passar. Essa vontade de fugir, de não existir. A palhaçada de se deixar envolver, de acreditar que é possível ser feliz. Está na hora de aceitarmos os fatos, por piores que sejam. Fatos são fatos. O cachorro dorme tranqüilo, porque sabe que está sozinho. Não espera que ninguém o trate com consideração. Qualquer gesto de carinho é bem vindo. Qualquer explosão atômica será rechaçada por poemas quebrados, granadas sucateadas e bicicletas sem selim. Ando pela sala armado apenas com uma lata de Fanta Uva. Eu a conheço nua. Quão indiscreta ela se exibia subindo em arvores. Como eu poderia evitar todo o tráfico obsceno do jardim de samambaias? Ela cristalizou o meu desejo quando audaciosamente se aproximou naquela tarde de cerveja e amigos chapados. Eu repeti. Te conheço nua. Você não subia em arvores? Não saiu no Carnaval na ala das sodomitas recatadas? É claro que naquele dia ela não queria nada comigo. Se escondeu na lavanderia e passou a tarde toda dobrando anáguas. Não consigo imaginar onde ela conseguiu tantas anáguas. Ela me disse cruelmente: Você cheira mortadela. Assim mesmo. Desse jeito. Não consigo ficar perto de alguém que cheira mortadela. Me recolhi profundamente magoado. Me exilei entre bebedores de cerveja e comedores de sardinha. Fui ficando cada vez mais dissimulado. Ah, então era assim que se fabricavam vencedores? Eu também ia conseguir. Eu tinha os meios. Tinha garra. Tinha talento. Era só ler os livros indicados, sorrir na hora mais exata, cumprimentar os canalhas certos. Eu estava aprendendo. Foi assim que cheguei aqui, como um alpinista de plantão. Spider man de ocasião. Você ainda lembra de mim? Algum odor de açougue a incomoda. Não? Que bom. O isolamento acústico permite o escândalo quase envergonhado, mas necessário. O isolamento acústico é a melhor invenção depois do filtro de papel. Meu olhar se arrasta pelas paredes, pelas gravuras falsas de Basquiat, pelos penduricalhos hipongas, pela decoração neo qualquer coisa, por esse jeito "moderno" de decorar lofts. A afetação é a musa do século 21. Ela diz que cheiro erva doce. Vencedores tomam Fanta Uva. Ela quer ler meu mapa astral, encostar sua boca em meu ouvido e sussurrar poemas de Cecília Meireles. Ela quer o impossível. Me levar ao Mc Donald's, ao 54 e ao Blue Night. Ela já vem lubrificada e quer minha aprovação. Sua maquiagem impecável é a sofisticação da sedução. Dou a ela minhas doenças e minha inabalável fé na Bolsa de Valores. Entrego de bandeja meu cinismo e meus relógios cromados. Me precipito pelas escadas estourando pneus, vazando gasolina, em queda livre para o paraíso dos párias incondicionais. Minha queda é mostrada em panavision nas penitenciárias do país. Minha taquicardia de animal obeso. Meu jeito cool forjado em sessões de super fight. Desapareço entre automóveis, gravatas puídas e mini saias. Sinto uma estranha saudade do tempo que ela subia em árvores.