30.7.03

Entre tôdas, as grandes paisagens rasas são as que mais me atraem, – as planícies monótonas, – e até teria feito longas viagens para encontrar regiões de lagos, mas encontro-as aqui, à minha volta. Não pensem, por isso, que eu seja triste; nem sequer sou melancólico: sou Títiro e solitário, e gosto tanto de uma paisagem quanto de um livro que não me distraia do meu pensamento. Pois o meu pensamento é triste; é sério, e mesmo, comparado com outros, algo lúgubre; amo-o mais do que a qualquer outra coisa e é porque o passeio comigo que procuro principalmente as planícies, os lagos sem sorrisos, as regiões pantanosas. O meu pensamento, suavemente, vai passear comigo.

- André Gide, em Pântanos
Eu tenho medo de enlouquecer. Muito. É o primeiro dos meus medos. Medo de ficar louco e pensar nisso todos dias. O segundo medo é ter os olhos furados. E o terceiro é cair com um avião no meio do pacífico e ir parar em uma ilhota, com mais uma pessoa. E ter que se esforçar pela sobrevivência de ambos sob a pena de ficar sozinho no lugar. Isso é um pouco de egoísmo. Tipo, se fossem cinqüenta pessoas na ilha, eu só precisaria me preocupar comigo, pois se alguém morresse, ainda restariam quarenta e nove pessoas. Pior seria estar na tal ilha só tu e mais o amor da tua vida. É nisso que eu penso nas noites de insônia, que são todas. Eu sofro de pensamentos compulsivos e angústia crônica.

-Cristiano Baldi, em As Meninas na Caverna 15

17.7.03